Conjuradores & Constituição

Talvez uma das histórias mais antigas do sistema D20 seja o alinhamento entre Conjuradores e o atributo Constituição e a simbologia de uma mecânica deficiente e cansativa: os Hit Points, traduzidos para Pontos de Vida, que representavam um amontoado de números que definiam em contagem regressiva o limite da capacidade de ação do personagem.

Zerados os pontos de vida, o personagem entrava, ao longo de várias edições, em uma série de tentativas de se evitar a morte. Isso tornava Constituição um atributo prioritário mas, secundário. Prioritário por que dele dependia o desempenho do personagem, como a gasolina de um carro, secundário por que além de determinar a resiliência do personagem, sua utilidade era quase desnecessária. Exceto por algumas pericias, de pouco uso além de Concentração na 3.5, e de uma resistência, extremamente relevante mas sem “uso” você efetivamente não usava a Fortitude, não havia muito o que fazer com Constituição.

Ainda assim, era atributo secundário ou terciário no sistema de pontos de compra, ou recebia o segundo ou terceiro maior valor rolado, para aqueles adeptos à emoção de valores aleatórios. E isso tornava proporções ainda maiores para conjuradores que, devido a seus poderes desbalanceados em mais de uma edição, acharam por bem um nivelamento de poder reduzindo os pontos de vida oriundos da classe.

Pode parecer escárnio, mas brincadeiras como “Mago morrendo com facada no pé.”, “O goblin espirra, o feiticeiro testa fortitude” eram reais: D&D 3.5 e 3.0 o mago, e seu companheiro rebelde o Feiticeiro, recebia miseráveis 1d4 de pontos de vida, rolados sob muita reza e mandinga. Mas não só ali, o castigo lhe perseguia desde edições mais antigas como D&D, AD&D 1 e AD&D 2. Na infame 4ª edição, que suprimiu os pontos de vida rolados por valores fixos, os conjuradores também foram relegados à menor quantidade de pontos de vida.

Dado de 4:
25% de chance de dar alegrias.
25% de chance de arrependimento.
100% de espaço para trocadilhos.


A principio, a idéia era representar a fragilidade de um conjurador, sua fraqueza em pouca estamina e resistência a golpes. Por outro lado, conjuradores de igual poder vindos de outras fontes recebiam quantidades de vida maiores: clérigo iniciava com d6 nas edições mais antigas, e despontava para o d8 nas edições mais recentes, incluindo aí a 5ª Edição.

Nesse contexto, surgia a figura icônica: O mago fisiculturista! E suas contrapartes similares, como Feiticeiro Bodybuilder, o Clérigo Crossfiteiro e o Bardo geração saúde. A graça residia nisso: A classe detinha um histórico de estudioso, recluso, dedicado às proficiências da mente e relatada como individuo de pouca resistência, no caso dos magos e feiticeiros.

Na pratica, víamos conjuradores com constituição mais alta que combatentes primários. Guerreiros calejados em suas inumeras batalhas apresentavam uma resistência natural mais baixa que ratos de biblioteca.

Consequência da mecânica de pontos de vida: uma longa lista de conjuradores prontos pra por a geração saúde no chinelo, e esse era o maior destaque do atributo, em termos cômicos já que em questões mecânicas Constituição era o atributo mais passivo existente.

A parte disso, na 4ª Edição finalmente houve mudança drástica no uso dos atributos. As resistências passaram a ser usadas em um sistema de melhor de duas, e deixaram de ser um modificador para serem uma defesa como CA. Nesse panorama, os Atributos todos foram elevados a condição de atributos ativos: as classes usavam diferentes atributos de acordo com suas funções permitindo coisas como atacar utilizando carisma, e afins.

Batendo, com charme!

Constituição não ficou de fora e na humilde opinião do relator, teve sua melhor representação no Bruxo, que também, nascido na 3.5, sofria com condição secundária. Era uma classe bastante versátil, sem picos de poder, mas presença constante, porém era utilizada majoritariamente para combos.

Um dos “arquétipos” do Bruxo, na 4 edição, utilizava constituição como atributo de conjuração. Um flavor fantástico de um pactuado que, dispondo do poder de um patrono hostil, o canalizava através da resistência do corpo, como uma bateria direcionando suas descargas.

Bruxo Infernal, um clássico da edição.

O famoso Bruxo Infernal, foi uma das opções de classe mais consistentes em dano e proteção, e uma das que mais vi nas longas campanhas da 4 edição que narrei. Não obstante à pouca popularidade da edição, muito de bom pode se tirar dessa experiência e conjuradores com constituição primária certamente se incluem entre eles.

Nós do Crisol trabalhamos com o saudosismo, e a mecânica, entre os materiais futuros, pretendemos trazer essa questão de conjuração através de atributos incomuns, como constituição, seguindo um flavor adequado sem nos perdermos na mecânica. Tudo para é claro, não deixar morrer esse meme que é o C&C, conjuradores e constituição.

Segue uma prévia de um Arquétipo para D&D 5E e uma opção para Pathfinder 1, sistemas que usamos e trabalhamos, elaborado para esse meme: antigo, bizarro mas que de alguma forma faz sentido.

[5E] Bestiário de Karvox

Imagem de ChrisBeckerArt

Quando comecei a dar andamento aos Impérios Despedaçados, e minha narrativa começou a englobar cada vez mais detalhes, eu entrei em conflito com o sistema de geração de encontros, na época eu usava D&D 3.5.

Meu principal problema foi que eu me sentia fazendo algo “errado” simplesmente rolando um encontro com trolls contra jogadores do nível apropriado. “Essas criaturas são vagamente inteligentes?” “O que elas estavam fazendo ali?” “Por que atacariam os jogadores ao acaso?” perguntas frequentes que mesmo que eu encontrasse na estupidez da maioria dos monstros a razão, não me sentia bem, era como se eu colocasse eles de paraquedas para darem experiência e loot. Não é bem o meu estilo de narração.

Foi então que comecei a preparar os encontros com alguma lógica e explicação, os Trolls estavam naquelas colinas pois foram afugentados para ali, a quimera atacava a vila pois o último comando de seu criador foi “proteja o ninho” e o ninho ela entendeu que fosse aquelas cercanias. Com o tempo isso também me deixou insatisfeito com um detalhe: as criaturas simplesmente não faziam nexo no cenário, Impérios Despedaçados têm um tempero peculiar e bastante caprichoso, não conseguia simplesmente encaixar com razão aqueles seres. Não no meu estilo de narração.

Me restou apenas seguir em frente fazendo um bestiário apropriado para cada região, delimitando suas áreas, preparando as criaturas e até mesmo criando novas. Dessa maneira foi possível encaixar alguns seres, originar novos, e fazer os encontros parecerem mais naturais do que experiência de paraquedas.

Eis então que temos o bestiário de Karvox, um trabalho em equipe envolvendo diversas mentes do Crisol Criativo, com um agradecimento especial ao Marcelo de Sousa Oliveira Andrade que nos ajudou pontualmente com algumas questões referentes a biologia e relações com o bioma. Fomos atrás disso pois queríamos dar uma certa verossimilhança na criação desses seres espetacularmente sobrenaturais.

O trabalho para adaptação para a 5ª Edição do bestiário de Karvox foi empenho mecânico exclusivo de Christian Zeuch. que criou a base mecânica das criaturas e suas características desafiadoras.

Aguardamos seu Feedback, embora esses seres sejam nativos de um bioma específico como o de Karvox, não vejo como não surgirem por aí incomodando em outras campanhas. Deixe sua opinião para nós. Até lá. William Homero Donel. Agradecimentos aos

Co-criadores: Marco Túlio “Toad” Scafutto, Fernando Gabriel “Biel” Murta, Alan Frederick “Fred”, Caio “24” Lopes.

Diagramação e Mecânica: Christian “CZ” Zeuch

Download: Bestiário de Karvox – 5E